quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Cañonaso, Gomes!

Pedro e Dona Conceição se casaram em São José do Mipibu, Rio Grande do Norte. Lá nasceram seus filhos Maurício e Tânia. Em 1959 eles vieram morar no Rio. Essa mudança não teve nada a ver com as características nômades do povo nordestino, mas foram os ossos do ofício, Pedro era militar e tinha sido transferido. Desembarcaram na cidade com os dois filhos e mais um no bucho de Conceição. No dia 27 de maio daquele ano nasceu mais Gomes de Melo. Henrique Luis que, em família, é chamado de Luluca. Vai entender o porquê! Henrique pensa e diz pra todos que é carioca, mas custa a acreditar quando a gente olha para o que sobra do seu tronco e membros. É grande, amigo!

Dona Conceição criou os filhos no rigor da regra: “pé de galinha não mata pinto”. Desse jeito, a molecada, conhecendo o peso da mão, pensava duas vezes antes de negligenciar uma ordem da mãe. Era de casa para escola da escola para casa e olhe lá. O militarismo levou a família para Brasília e depois para a Bolívia. Foi na Bolívia, em Santa Cruz de La Sierra, que Henrique pode experimentar a liberdade. Na Escola a programação esportiva era intensa.

Luluca, que era chamado de Gomes, apesar de nunca ter chutado uma bola, se dedicou ao futebol caprichando nas aulas dos fundamentos: chutes; cruzamentos, batida de faltas e pênaltis. Treinava, inclusive, aos sábados. Sua perseverança e o dom dos brasileiros para este esporte lhe valeu uma vaga no time da sua categoria.

O campeonato daquele ano na escola, na categoria terceira e quarta séries, já estava na sua fase decisiva. O time de Luluca, ou melhor, Gomes faria o jogo principal da rodada. Os pais, parentes, amigos e aficionados do futebol se acotovelavam em volta do campo. Não cabia sequer um par de olhos. Lotação esgotada.

Antes do jogo o técnico reuniu a equipe e entre outras instruções disse:

- Tiro penales! Gomes.

Isso definiu Henrique, o camisa 10 do time azul, como batedor oficial dos pênaltis, o cara tinha o chute mais potente e certeiro do time. A outra equipe tinha o uniforme vermelho.

O jogo começou e avançou num clima de tensão. A platéia, atenta, se manifestava com aplausos e gritava uh´s prolongados quando, num chute ou outro, a bola raspava a baliza. Gol para o adversário, gol para o time de Gomes. Um a um no placar e o jogo estava para acabar. Os vinte e dois meninos desdobravam-se na tentativa de vencer a partida. Foi no ímpeto da vitória que o zagueiro do time vermelho exagerou e fez falta dentro da área. O árbitro em cima do lance marcou. Pênalti.

O técnico do time azul gritou do banco de reservas.

- Gomes! Gomes!

A torcida ouvindo o técnico emendou em coro.

- Gomes, Gomes, Gomes, Gomes...
Gomes, o nosso Henrique e o Luluca de seus familiares, pegou a bola e colocou na marca do pênalti, pensando:

- Vou chutar forte no canto esquerdo do goleiro. Vai ser um golaço.

Tomou distância e já se preparava para bater, quando um companheiro de time, para incentivá-lo ainda mais, lhe disse.

- Cañonaso, Gomes! Cañonaso! Era um pedido para que ele chutasse o mais forte que pudesse.

Ouvindo o amigo, Gomes afastou-se um pouco mais da bola. Neste momento estava muito tenso. O juiz apitou e ele partiu numa velocidade de dar inveja aos corredores dos 100m rasos. Queria garantir potência total ao chute. No trajeto ainda deu tempo de imaginar como iria comemorar o gol e já ouvia os gritos da torcida. Porém, a centímetros da ‘pelota’ e da sua consagração, Henrique tropeçou e voou por cima da bola caindo de cabeça, metros à frente. A torcida, técnicos, arbitragem e jogadores gargalhavam e Gomes, ruborizado de vergonha, cuspia os tufos de grama que entraram na sua boca durante a aterrissagem.

O que aconteceu daí até o fim da partida, está deletado da sua memória. Entretanto, quando lembra dessa história ele sente, perfeitamente, o gosto da grama. Henrique acha que vai ruminá-la eternamente.


PS.: Henrique desistiu da carreira de futebol. Hoje é um amigo leal e divertido com quem eu tenho prazer de trabalhar.

3 comentários:

Anônimo disse...

Sou contra isso de falar que o Henrique deva abandonar o futebol.
Já que existe um grito de guerra pro jogador Rui,também pode ter um pro Henrique:
"Henrique cabeçããão"

Anônimo disse...

Este fato aconteceu em 1969 e até hoje está gravada na minha memória a imensa vergonha que passei perante aos meus colegas, minha fama de chutador canhão caiu por terra (ou grama). Continuei jogando futebol, mais sem bater pênalti.
Henrique

Anônimo disse...

Muito bom!!!!!!!!!
bjs
Márcia