quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Agripino no caminhão

Dia desses, Agripino e eu fomos a um churrasco em Irajá, num condomínio de prédios bem às margens da Avenida Brasil. Estacionei o carro numa ruazinha sem movimento, mas que dá acesso a tal avenida.

Saltamos do carro, eu dei uma boa olhada em volta pra fazer o reconhecimento da área. A situação era a seguinte: Na primeira vaga de estacionamento da rua estava um caminhão basculante muito velho. A impressão que dava é que há muito não saia daquele local; atrás dele o nosso carro e atrás de nós uma Kombi. Deste lugar podíamos ver e ouvir o movimento do trânsito na Av. Brasil.

O som do samba que ouvíamos e o volume do falatório indicavam que a festa já rolava há algum tempo. Chegamos ao local. A animação era geral. Fomos recebidos por Paulão que, antes mesmo dos cumprimentos, nos entregou duas cervejas. Agripino bebeu a dele num só gole, exclamando em seguida:

- Ah!!!!! Agora sim!

Olhei pra cara de alegria do Agripino e pensei: Vou me segurar. Acho que vou ter que cuidar desse moleque.

Churrasco da melhor qualidade: A picanha no ponto, com aquela tonalidade bronzeada, envolta numa capa de gordura dourada; lingüiça toscana; coxinha de frango com pele; coração e etc... Demais! Colesterol aplaudia de pé. Para alegria do churrasqueiro, Agripino não recusava e tudo acompanhado de molho vinagrete, arroz, farofa, maionese, saladas. Além disso tinha os extras: costelinha de porco; pão com creme de alho; banana na brasa e o Agripino mastigando sem dispensar a cerveja gelada, as doses eventuais de caipirinhas e de whisky.

Lá pelas quatro da tarde, Agripino cantava e dançava na roda de samba, batucando na palma da mão e tome cerveja. Vez por outra alguém oferecia licor de jenipapo apenas uma pessoa aceitava. Advinha quem? Agripino é claro! E mais salada de frutas com groselha, manjar com ameixas em calda, sorvete e mais cerveja.

Seis da tarde! Já deu!

- Agripino! Vamos nessa?
- Qual é! No melhor da festa?
- Cara! A festa já acabou. Isso aqui é uma aglomeração de bebum.
- Que bebum? Eu tô legal.
- Ah é! Quero ver se você consegue chegar no carro.

Diante do desafio, Agripino partiu sem se despedir de ninguém. Eu dei um tchau geral e fui atrás. Para minha surpresa, ele acertou o caminho. O carro estava lá, entre a Kombi e o caminhão. Destravei as portas e meu amigo mal segurou na maçaneta, entortou a boca e disse demoradamente:

- Hummmmmm!
- Que foi? Vai vomitar? Perguntei
- Eu nunca vomito! Tô com uma tremenda dor de barriga!
- Mas e daí? Dá pra chegar em casa?
- Não dá nem pra dar um passo, quanto mais chegar em casa.
- Então volta lá na festa. Nem acabei de falar e Agripino interrompeu
- Cara! Você não tá entendendo. A tartaruga já botou a cabeça pra fora!

Bem! Eu, que tinha testemunhado tudo que o cara tinha bebido e comido, entendi que a situação exigia providências imediatas. Para isso peguei um jornal dentro do carro. Agripino não sabia o que eu tinha em mente. Então lhe dei o primeiro caderno do diário e disse:

- Isto é um vaso sanitário Ideal Standart, com caixa de descarga acoplada.

Dando-lhe o caderno de esportes. Completei.

- E isto é um rolo de papel higiênico, 40 metros, folha dupla, perfumada, Neve.
- Legal! Onde tem uma portinha com a inscrição “WC” pra gente instalar e usar estes equipamentos?
- Ali! Disse-lhe apontando para o caminhão que estava a nossa frente.
- Tá de sacana....

Nesse momento, Agripino deve ter tido algum espasmo, porque ele desistiu de discutir minha idéia. Deu um salto e caiu dentro da carroceria do bruto e o que segue, é o que eu me lembro da sua narrativa.

Mal entrei na carroceria, instalei o vaso, forrando o jornal com as folhas abertas, uma em cima da outra pra dar impermeabilidade e resistência ao material que ali seria depositado. abaixei as calças e me acocorei. Os trabalhos ainda estavam no inicio quando meu corpo deu um solavanco pra frente. Disse pra mim mesmo: Tô bêbado! Em seguida fui arremessado pra trás. Acabei de barriga pra cima com os pés e as mãos apoiadas no “chão” e a bunda levantada pra não encostar no resultado da minha obra que, aliás, ainda estava em andamento e longe de acabar. Nesta posição, pude perceber que os postes se movimentavam em direção a traseira do caminhão.

- Caraca! Ou estou bebaço ou esse calhambeque... Não acredito! O caminhão está andando!

Porém, as fisgadas que eu sentia na barriga denunciavam que eu ainda não tinha acabado o que tinha ido fazer ali. Não cabia preocupação com destino da viagem. O deslocamento do veiculo e a consistência, fizeram com que material produzido escorresse, ora na direção dos pés, ora na direção das mãos, isso fez com que eu ficasse andando de um lado para outro como se fosse um Caranguejo, com as calças arriadas.

Terminado o parto, procurei o papel higiênico mas, na confusão, tinha voado para fora da carroceria, salvou-se apenas uma meia folha que noticiava a derrota do Flamengo. Ainda bem!

Aliviado e devidamente refeito daquela situação, restava apenas um embrulho no canto da carroceria. Foi aí que recuperei a razão e percebi que o velho caminhão avançara um bom trecho da Avenida Brasil.

O que fazer? Dar um toque no motorista? Nem pensar! Vai ser vergonhoso explicar o que aconteceu.

Agripino disse que nessa hora, se esgueirou até o fundo da carroceria para ver se eu seguia o caminhão. Quando viu que isso não acontecia ficou irado sem saber o que fazer. Até que o bicho parou, mas do que de pressa ele pulou pelo fundo da carroceria para que o motorista não o visse pelos retrovisores. Descobriu que estava num semáforo em frente à rodoviária Novo Rio.

Como todos os pertences dele estavam comigo, ele foi até um telefone público e ligou para meu celular. Chegando lá encontrei Agripino irritadíssimo. Arregalou os olhos pra mim e disse aos berros.

- Nunca mais me venha com suas idéias. Deixa que eu resolva meus problemas.
- Tá bem! Eu só quis ajudar.
- Dispenso. E porque você não seguiu aquela droga de caminhão?
- Eu tentei, mas não consegui.
- Não conseguiu, por que?
- Porque não deu para dirigir, gargalhando daquele jeito!
- DESGRAÇADO!!!!!

2 comentários:

ADILSON disse...

Continuo dizendo: não perca o Agripino de vista. Pelo que percebo, ele é um verdadeiro compêndio de contos curtos. Quanto ao jornal que você quebrou o galho do amigo, deve ser muito antigo.

Anônimo disse...

Eu que não queria ser esse Agripino!!!!
Ele não tem muita sorte!!!
Imagina que maluquice, dor de barriga e ainda por cima dentro da carroceria de um caminhão num engarrafamento!!!!!!!!!
Coitado!!!!!