Meu amigo Agripino não faz segredo da sua vida, conta suas histórias com a mesma naturalidade com que respiramos, algum tempo de convívio e pronto! Parece que estivemos com ele durante toda sua vida.Noutro dia estávamos no enterro da mãe de Pepê, um amigo comum. A rodinha das piadas ganhava adeptos e o som das gargalhadas aumentava de volume. Agripino se mancou e foi saindo de fininho.
Eu, que não conhecia, muito bem, os familiares do amigo órfão, estava um pouco destacado, passando o tempo lendo as lápides dos túmulos mais próximos e calculando com que idade o fulano tinha morrido.
Agripino se aproximou de mim, mas eu não lhe dei atenção. Pensava: 1969 menos 1918. Morreu com 51 anos. Segundo um primo meu, se fosse hoje, esse cara não tinha a menor necessidade de morrer, pois a média de vida do brasileiro aumentou para setenta e dois anos. De repente ouço a voz do Agripino:
- Tá vendo aquele túmulo ali?
- O quê? Indaguei. A matemática não tinha deixado eu entender a pergunta do Agripino.
- Aquele, com uma cruzinha em cima? Parece uma igrejinha!
- Ah! To vendo. E daí?
- Então! Quando vai enterrar o cara, a cabeça do defunto fica pra aquele lado e, normalmente, o túmulo é tampado por cima.
- Valeu Agripino! Qual é a novidade?
- Pô! Tem túmulo que a tampa é aqui no fundo onde ficam os pés do morto, sabia?
- Você já viu alguém ser enterrado num jazigo desse tipo?
- Já! Vou te contar! Percebi um certo entusiasmo nesta resposta.
Aí, meu amigo Agripino, começa narrar sua saga com a costumeira naturalidade.
Foi há, mais ou menos, trinta anos. Era um sábado de manhã, eu estava acabando de tomar o café e pensava em chamar os amigos para ir a praia quando a campainha começou a tocar repetidamente. Era “Cabeça de Ferro” um vizinho caminhoneiro que ganhou esse apelido por ter sido obrigado a colocar, através de cirurgia, uma placa de metal na cabeça para corrigir os estragos feitos por uma porretada que um ajudante do caminhão lhe tinha dado.
- Fala, Cabeça! Entra!
- Não, não! Tô com muita pressa, chega aqui, por favor!
- Já vou!
Larguei o café e saí rapidinho. Cabeça de Ferro andava de um lado para outro, nem bem me aproximei e ele foi logo dizendo.
- Agripino! Tô no sufoco. Perdi meu irmão, morreu num desastre de automóvel na Bahia e vai ser enterrado amanhã de manhã em Itororó, perto de Itabuna, cidade onde mora minha família.
- Ca-be-ça!
- Cara! Eu cheguei agora de uma viagem, passei a noite toda no volante do caminhão, estou cansadão. Minha mulher já procurou em todas a companhias aéreas e não encontrou passagem. Eu quero ver meu irmão antes dele ser enterrado. Não importa como.
- Entendo! Como é que eu posso te ajudar?
- Decidi ir de carro e acho que não tenho condições de encarar a viagem sozinho. Então, vim te pedir pra quebrar este galho. Vai comigo? Dá uma força, dirigindo?
Cabeça de Ferro tinha um fusca novinho, não seria complicado encarar a empreitada. Eu estava de férias na faculdade, tinha todo tempo e, além disso, não poderia deixar um amigo sozinho, numa enrascada daquelas. Concordei.
- Tudo bem! Vamos nessa! Vai dar pra chegar lá a tempo, Cabeça?
- Vai! São mil duzentos e poucos quilômetros até lá, mas tem um trecho de mais ou menos uns cento e trinta e cinco quilômetros de estrada de terra. A gente poderia evitar esse trecho, mas teríamos que ir até Itabuna e de lá para Itororó e isso tornaria viagem mais demorada.
- Então tá! Vou avisar em casa e pegar umas coisas, em dez minutos a gente sai.
- Obrigado Agripino!
Partimos, mas somente por volta da quatro da tarde pegamos a estrada. Cabeça de Ferro teve que providenciar para descarregar o seu caminhão, numa fábrica de sorvetes.
Bom! O enterro seria no domingo às oito horas, tínhamos, portanto, umas dezoito horas para cumprir o trajeto, lembrando os cento e poucos quilômetros de estrada de terra. Restava, então, acelerar. Cabeça, sentado no banco do carona, parecia cochilar, porém se o ponteiro baixava dos cento e vinte por hora ele abria os olhos e dizia:
- Pô! Agripino acelera aí! Vai me atrasar.
- Curva fechada Cabeça! Não tô muito acostumado a dirigir em estrada não!
- Vai ter que se acostumar, né? Então mete 120 que você se acostuma mais rápido.
Ele tinha razão, em pouco tempo eu já estava à vontade na estrada. Mais relaxado e com Cabeça dormindo, pude liberar meus pensamentos para as futilidades. Foi aí que me lembrei que até àquela hora, minha alimentação se resumia no café da manhã interrompido pelo “dindon” desesperado da campainha.
- Cabeça! Cabeça de Ferro!
- Fala “Agri”! Falou enquanto bocejava.
- Cara! Tô cheio de fome!
- Tô com pressa! Disse isso, fechou os olhos e virou pro lado.
- Cabeça! O fusquinha tá com fome também, o ponterinho da gasolina tá agarrado no “R”.
- Caramba! Pára no próximo posto.
- Se tiver lugar pra comer, né?
- Na estrada todo posto tem um lugar pra descolar um “PF”.
- PF? Então tá! Fazer o que?
Encontramos o posto e logo o fusquinha e eu estávamos abastecidos para mais alguns quilômetros. Já o Cabeça de Ferro estava com autonomia para o restante da viagem, inclusive a volta. Também, pra encher aquele barrigão. Haja “PF”.
Novamente na estrada de pé em baixo, eu ouvia o ronco do Cabeça e do motorzinho 1300L a 120 Km/h. De repente achei que tínhamos decolado e voávamos dentro de uma nuvem. Bem! Já que o carrinho não era tão veloz assim, entendi que se tratava de uma neblina intensa. Diminui a velocidade e esperei passar aquela situação, mas a coisa piorava. Eu não conseguia enxergar além de uns dez metros à frente. Isso, aliado a inexperiência, foi me deixando apavorado. Não sabia se havia acostamento, não dava pra ver. Parar onde estava, nem pensar. Cabeça dormia a sono solto, tive pena de acordá-lo, mas a gente corria riscos.
- Cabeça! Cabeça! Cabeça de Ferro!
- Agripino! Pra que gritar assim?
- Cara! A coisa tá feia!
- Tá mesmo. Você vai perder a corrida pra aquela tartaruga. Acelera, porra!
- Não tô vendo nada!
- Então pára
- Aonde?
- Tem acostamento aqui. Pára e vamos trocar de lugar bem rápido. Há perigo de alguém bater na gente.
Cabeça de Ferro tomou a direção e não demorou já estava a toda velocidade. E a neblina lá. Agora sim! Poderíamos estar voando mesmo. Fiquei mais encagaçado do que quando eu dirigia.
Vida que segue! O asfalto passava por baixo do carro e a gente tava bem na corrida contra o relógio, mas eu continuava tenso. Daqui a pouco, do nada, apareceu um animal, achei que era um cão grande e amarelado, seus olhos brilhavam olhando pra nós. Cabeça enfiou pé no freio e o fusca cantou pneu nas quatro rodas, mas foi deslizando pra cima do bicho que como um cachorro medroso, abaixou e parou. Quando pensei que o atropelaríamos, Cabeça deu uma guinada. O carrinho sambou pra lá, pra cá e acabou acertando. Foi um tremendo susto, mas valeu porque a vida do cão ou sei lá o quê foi poupada.
Era quase meia noite. Tínhamos que parar e reabastecer, pois, por causa da crise do petróleo, o governo tinha decretado o fechamento dos postos de combustíveis aos domingos. Aproveitamos e enchemos de gasolina, um vasilhame de dez litros que carregávamos para alguma emergência. Fizemos as contas e concluímos que o combustível não seria suficiente para terminar a viagem. Tocamos em frente.
Chegamos na tal estrada de terra entre cinco e seis horas da manhã e logo no seu início havia uma cabine da Polícia Rodoviária. Paramos e Cabeça de ferro abordou o policial.
- Bom dia, Sr. Guarda!
- Bom dia! Ele respondeu
- Estamos indo para Itororó.
- Vai demorar umas três horas e meia para chegar lá. A estrada está péssima.
- Não diga isso! Precisamos chegar lá por volta de oito horas. Estamos indo ao enterro do meu irmão.
- Meus sentimentos.
- Obrigado! Temos um outro problema. Estamos zerados de gasolina. O Sr. não sabe onde podemos conseguir?
- Sei! Você deve voltar uns cinco quilômetros e encontrará um posto fechado com uma casinha do lado. A Dona do posto mora naquela casinha. Explica tua situação e diga que eu te mandei lá. Ela vai quebrar essa.
Cabeça já estava manobrando quando o Policial emendou:
- O meu turno termina às seis horas e eu vou para Itabuna. Me dê uma carona?
- Fechado. Cabeça concordou.
Fizemos como o guarda falou e conseguimos encher o tanque do carro. Na volta, Cabeça parou na cabine buzinando e gritando:
- Borimbora, seu Guarda! Vai querer carona?
- Claro! Tô indo.
- Será que o Sr. pode dirigir? Estamos sem dormir e cansados.
- Sem problemas. Respondeu o guarda.
O Policial assumiu a direção, Cabeça foi para o banco do carona e eu para o banco de trás. Pensei: Vou deitar nesse banco e dormir. Reiniciamos a viagem e meu amigo lembrou ao guarda da nossa pressa. O homem entendeu e sua resposta foi acelerar naquela estradinha esburacada. A gente passava dentro de um buraco e voava por cima de dez. Epa! Olha o fusca voando de novo. Porém, nunca aterrissava na direção que seguíamos, mas o guarda corrigia com mãozadas rápidas no volante. Dormir? De que jeito? Eu me sentia dentro de uma betoneira. Não sei quanto tempo levamos nessa agonia, até que finalmente chegamos em Itororó.
Deixamos o policial e seguimos para o cemitério da Cidade, porém nem chegamos lá. Encontramos os familiares do Cabeça que vinham de volta. O enterro já tinha sido feito.
Certamente aquele não foi o encontro que a família desejava. Havia tristeza e muito choro. Explicaram que esperaram até quando puderam suportar o sofrimento.
Fomos todos para uma enorme fazenda onde morava a família do Cabeça. Eles não eram os donos da propriedade, eram administradores.
Às vezes o clima aliviava e algum detalhe do acidente era contado por alguém, Um bêbado bateu de frente no carro do irmão do Cabeça, que estava parado no acostamento. Eles não se conformavam com isso.
Eu, sem saber muito bem o que falar ou fazer, fiquei num canto e deixei rolar, até porque nem conhecia aquelas pessoas. Quieto, dei de ouvir meu estômago me lembrando que depois daquele PF eu não tinha comido mais nada. Além de mim, a falta de apetite era geral e justificada.
Lá pelas tantas uma das irmãs do Cabeça, aparentemente a mais nova, veio na minha direção e disse:
- Quer almoçar? Já são quase duas. Você deve estar com fome.
Fiquei com vergonha de dizer sim, mas não tive força pra dizer não. Então respondi:
- Quando todos forem almoçar, eu vou também.
Ela entendeu. Mostrou-me um banheiro, o quarto onde eu iria ficar e disse:
- Tome um banho e depois eu te levo para comer. Depois vá para o quarto e durma um pouco. Se ficar esperando por nós você vai dormir em pé e morrer de fome.
Cumpri à risca. Em poucos minutos estava dormindo confortavelmente. Por volta das cinco horas eu acordei. Sentara-me na cama quando Cabeça entrou no quarto, me convidando para sair com ele e um dentista, amigo da família. Eu topei. Saímos de baixo da maior chuva.
O dentista dirigiu o carro por algum tempo e parou numa ruazinha sem asfalto. De fronte havia um muro comprido, mal pintado e com um pequeno portão. Nos dirigimos ao portãozinho e entramos. Ficamos diante de uma ladeira salpicada de cruzinhas numeradas, fincadas no chão, algumas delas cercada por retângulo feito com uma fiada de tijolos, diferenciado-as, por pouco, das covas rasas. Era o cemitério. Lá no alto havia uns três jazigos como este aqui. Um deles recém pintado e com uma coroa de flores em cima. Foi para este que o dentista apontou dizendo:
- É aquele.
- Vamos lá. Disse Cabeça.
Depois de alguns escorregões na lama, chegamos ao local. Paramos de frente para onde, supostamente, estariam os pés do defunto e, a julgar pela massa ainda fresca, aquela face era a tampa do jazigo.
A gente observava enquanto Cabeça de Ferro chorava e acariciava a tampa da sepultura, como se estivesse acarinhando o próprio irmão que ali jazia.
Ele exagerou na força dos carinhos porque a tal tampa se desprendeu do resto da construção e caiu.
Nesse momento, a nossa visão era do interior do jazigo, o caixão, de madeira envernizada recoberto de cal e pétalas de flores, estava bem ali, podíamos tocá-lo se quiséssemos. Foi então que se deu o fato.
Cabeça, como se acordasse de um estado de hipnose, segurou o caixão e começou a puxá-lo, dizendo pra nós:
- Me ajudem aqui!
- Que é isso, Cara! Exclamou o dentista.
- Tô pedindo pra vocês me ajudarem. Insistiu
- Pô! Não pode mexer no caixão. Falei sem convencer.
- E daí! Só tem a gente aqui e eu vou ver meu irmão. Berrou Cabeça de Ferro.
Nessa altura, o defunto já estava, quase todo “desenterrado” pelos puxões de Cabeça. Não restou alternativa a não ser ajudá-lo. Uma extremidade do caixão, onde estava a cabeça do morto, ficou apoiada no túmulo, a outra era suportada, a duras penas, por mim e pelo dentista.
Cabeça, com as mãos livres, tentou abrir a urna, desatarraxando umas borboletas distribuídas pela tampa. Foi com muito custo que conseguimos convencê-lo a abrir somente o visor, uma espécie de janelinha que fica na direção do rosto do defunto.
Com o visor aberto, deparamos com uma cara desfigurada, escurecida e inchada. Ao vê-la, Cabeça, que era alto e gordo, empalideceu e começou a suar, seu corpo balançava, aparentemente, tonto. Ele estava preste a desmaiar
Sem pensar, o dentista e eu fomos ampará-lo. Isso desequilibrou o sistema e os quatro – eu, Cabeça, o dentista e o morto - começamos a escorregar cemitério abaixo, facilitados pelo barro enlameado. Pega daqui, segura dali, Cabeça desmaiando, freio de mão puxado e a gente descendo. A derrapagem acabou a algumas cruzinhas abaixo. O dentista e eu, sentados na lama com o caixão sobre as pernas. Não sei como isso acabaria se não fosse o grito do dentista:
- Fecha esse troço! Fecha!
- O que? Perguntou o Cabeça, soluçando.
- Eu falei pra fechar, essa droga de caixão!
- Anda logo, Cabeça! Gritei também.
- Hum! O que?
- Esse gordo vai desmaiar!
- Fecha esta Porra! Gritamos em coro, eu e o dentista.
Cabeça de Ferro se recuperou e depois de uma partida difícil conseguimos colocar o caixão no lugar e deixar tudo, mais ou menos, como estava antes. Saímos mudos e imundos, com lama do dedão do pé até o topete.
Não foi fácil dormir naquela noite. Eu fechava os olhos e via a cara preta e inchada do defunto me olhando pelo vidrinho.
- Agripino! Agripino! Está ouvindo este sino tocando? Esquece esse tal de Cabeça de Ferro e essa cara inchada porque já vão enterrar a mãe do Pepê.
**************************** F I M ****************************
............................................................................... Por Flávio Rigueira
8 comentários:
Fl�vio.
Muito bom! O Agripino � o "cara". Voc� n�o pode perd�-lo de vista. N�o sei exatamente porque, mas me lembrei do saudoso Tio Maninho assistindo, do muro, a �ltima cena. Ia correr muito, e depois contaria que viu a cara preta do sujeito. Valeu mesmo!!! Abra�o.
Bela história... gostei da robustez do fusca (pobre guerreiro) que segurou firme o "pé de chumbo". rsrs
Legal mesmo, me fez lembrar de um amigo meu que não gosta nem um pouco de extrair o máximo de seu carro :)
Esse Agripino é um pé-frio desgraçado!!! Mantenham esse papa-defunto longe de mim!
Gláucio.
hahahaha
só consigo rir!
Imagina eles derrapando no cimiterio!rs
Não consigo rir.
Admita que vc é o Agripino.
Tb não consegui rir. mas consegui ficar cansada, suja e com fome.
Essa história está muito engraçada!!!!!
Acho que vou querer ser sua empresária, incentivando para que você escreva um livro. (ou quem sabe,..., muuuiiitos livros!!!!).
bjs
Essa história está muito engraçada!!!!!
Acho que vou querer ser sua empresária, incentivando para que você escreva um livro. (ou quem sabe,..., muuuiiitos livros!!!!).
bjs
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